Fomos até o lago, atendendo ao desejo do caro menino. Ele levou a pequena embarcação que seu tio Nat fizera para ele há muito tempo, e que, desde ontem, tem sido seu brinquedo favorito. Lançou-a no lago e ela se parecia muito com uma chalupa de verdade, agitando-se de um lado para outro, em meio às ondas que se formavam. Acredito que ele passaria cem anos, mais ou menos, muito satisfeito, sem nenhum outro divertimento a não ser aquele. Eu, enquanto isso, tirei do bolso a National Era e a li com bastante atenção. Já constatei antes que a melhor maneira de obter uma impressão e sentimento vívidos de uma paisagem é sentar-se diante dela e ler, ou absorver-se em pensamentos: pois então, quando os olhos da pessoa são por acaso atraídos pela paisagem, parecem pegar a natureza desprevenida e vê-la antes que ela tenha tempo de mudar seu aspecto. O efeito não dura senão um rápido instante, e desaparece quase na mesma hora em que a pessoa toma consciência dele; mas é real, durante aquele momento. É como se a pessoa pudesse ouvir por alto e entender o que as árvores estão sussurrando entre elas, é como se pudéssemos dar uma rápida olhada num rosto sem véu, que se vela diante de todos os olhares intencionais. O mistério é revelado e, após uma ou duas respirações, volta a ser o mesmo mistério de antes.
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VINTE DIAS COM JULIAN & COELHINHO, POR PAPAI, Nathaniel Hawthorne
janeiro 27, 2011VINTE DIAS COM JULIAN & COELHINHO, POR PAPAI
dezembro 24, 2010Deixem-me dizer abertamente, só esta vez, que ele é um menino doce e adorável e digno de todo o amor que sou capaz de lhe dar. Graças a Deus! Que Deus o abençoe! Que Deus abençoe Febe por dá-lo a mim! Que Deus a abençoe como a melhor esposa e mãe do mundo! Que Deus abençoe Una, que anseio por tornar a ver! Que Deus abençoe a pequena Botão de Rosa! Que Deus me abençoe, por causa de Febe e de todos eles! Nenhum outro homem tem esposa tão boa, ninguém tem filhos melhores. Gostaria de ser mais merecedor dela e deles!
Minhas noites são todas melancólicas, tão solitárias e sem livros que eu esteja com estado de espírito para ler, e esta noite foi como o resto. Então, fui para a cama por volta das nove horas e tive saudade de Febe.
ALGUMA POESIA, Carlos Drummond de Andrade
novembro 26, 2010VIDAS SECAS, Graciliano Ramos
novembro 18, 2010Fabiano esfregou as mãos satisfeito e empurrou os tições com a ponta da alpercata. As brasas estalaram, a cinza caiu, um círculo de luz espalhou-se em redor da trempe de pedras, clareando vagamente os pés do vaqueiro, os joelhos da mulher e os meninos deitados. De quando em quando êstes se mexiam, porque o lume era fraco e apenas aquecia pedaços dêles. Outros pedaços esfriavam recebendo o ar que entrava pelas rachaduras das paredes e pelas grêtas da janela. Por isso não podiam dormir. Quando iam pegando no sono, arrepiavam-se, tinham precisão de virar-se, chegavam-se à trempe e ouviam a conversa dos pais. Não pròpriamente conversa: eram frases sôltas, espaçadas, com repetições e incongruências. Às vêzes uma interjeição gutural dava energia ao discurso ambíguo. Na verdade nenhum dêles prestava atenção às palavras do outro: iam exibindo as imagens que lhes vinham ao espírito, e as imagens sucediam-se, deformavam-se, não havia meio de dominá-las. Como os recursos de expressão eram minguados, tentavam remediar a deficiência falando alto.
Fabiano tornou a esfregar as mãos e iniciou uma história bastante confusa, mas como só estavam iluminadas as alpercatas dêle, o gesto passou despercebido. O menino mais velho abriu os ouvidos, atento. Se pudesse ver o rosto do pai, compreenderia talvez uma parte da narração, mas assim no escuro a dificuldade era grande. Levantou-se, foi a um canto da cozinha, trouxe de lá uma braçada de lenha. Sinha Vitória aprovou êste ato com um rugido, mas Fabiano condenou a interrupção, achou que o procedimento do filho revelava falta de respeito e estirou o braço para castigá-lo. O pequeno escapuliu-se, foi enrolar-se na saia da mãe, que se pôs francamente do lado dêle.
- Hum! hum! Que brabeza!
Aquêle homem era assim mesmo, tinha o coração perto da goela.
OBRAS POÉTICAS, Fernando Pessoa
outubro 27, 2010Começo a conhecer-me. Não existo.
Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram,
Ou metade desse intervalo, porque também há vida…
Sou isso, enfim…
Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulhos de chinelos no corredor.
Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo.
É um universo barato.
ELES ERAM MUITOS CAVALOS, Luiz Ruffato
outubro 25, 201048. MINUANO
a menina pisou com cuidado a sandália-de-couro novinha no chão de orvalho congelado os pés enrodilhados por meias cinza esburacadas o embornal cheio de cadernos as letras caprichadíssimas a professora uma italianona abrutalhada mas muito boa ela sempre passava a mão na cabeça da menina e pulou para dentro da carroça tracionada por um pequeno e barulhento trator que levava a gurizada para a escola rural ia todo mundo chacoalhando tiritando de frio pulando que nem cabrito sempre rindo sempre rindo era junho e as manhãs azulíssimas e a menina orgulhosa de suas tranças negras exibia seus olhos também azulíssimos pelos campos de soja e era feliz porque seu pai estava na roça com seus dois irmãos mais velhos a safra deste ano ia ser boa ele dizia à noite quando se reuniam na cozinha em torno do fogão-a-lenha e da água para o chimarrão zunindo na chaleira e a irmã bebezinha estava crescendo logo logo ia poder correr pelo quintal a sua algazarra e seria ouvida lá longe onde três pontos minúsculos eram seu pai e seus irmãos os chapéus em cima da cabeça e sua mãe na cozinha preparava o almoço polenta com galinha no molho e ela balançando de um lado para o outro sobre a carroça desfilava radiante seus olhos azulíssimos pela verde extensão das coxilhas e era plena em sua felicidade a felicidade que temos aos sete anos e que ela agora com o som do microsystem ligado no último volume no décimo terceiro andar de um edifício em cerqueira césar jogada no chão quase bêbada desesperadamente reconhece mas meu deus como deixara escapar aquela felicidade em que momento da vida ela tinha se esfarelado em suas mãos em que lugar fora esquecida quando meu deus quando
HISTÓRIAS DE CRONÓPIOS E DE FAMAS, Julio Cortázar
outubro 5, 2010INSTRUÇÕES PARA SUBIR UMA ESCADA
As escadas se sobem de frente, pois de costas ou de lado tornam-se particularmente incômodas. A atitude natural consiste em manter-se em pé, os braços dependurados sem esforço, a cabeça erguida, embora não tanto que os olhos deixem de ver os degraus imediatamente superiores ao que se está pisando, a respiração lenta e regular. Para subir uma escada começa-se por levantar aquela parte do corpo situada em baixo à direita, quase sempre envolvida em couro ou camurça e que salvo algumas exceções cabe exatamente no degrau. Colocando no primeiro degrau essa parte, que para simplificar chamaremos pé, recolhesse a parte correspondente do lado esquerdo (também chamada pé, mas que não se deve confundir com o pé já mencionado), e levando-a à altura do pé faz-se que ela continue até colocá-la no segundo degrau, com o que neste descansará o pé. (Os primeiros degraus são os mais difíceis, até se adquirir a coordenação necessária. A coincidência de nomes entre o pé e o pé torna difícil a explicação. Deve-se ter um cuidado especial em não levantar ao mesmo tempo o pé e o pé.)
FAROESTES, Marçal Aquino
setembro 1, 2010DEZ MANEIRAS INFALÍVEIS DE ARRANJAR UM INIMIGO (PARA FACILITAR O TRABALHO DO LEGISTA)
3 – Você repara como é pernuda a repórter da TV que veio filmar o boteco onde aconteceu a chacina na sexta-feira. De minissaia, uma beleza. Ela começa a fazer perguntas, todo mundo se encolhe. Surdos e mudos. Então você se aproxima, como quem não quer nada além de ver de perto as manchas de sangue no chão, os buracos de bala nas paredes e no balcão. E, é claro, aquele belo par de pernas. Na hora em que surge a oportunidade, você diz a ela que topa contar o que sabe. Desde que seja longe dali e com duas condições: você só aparecerá de costas e terão de mudar sua voz quando a entrevista passar na televisão. Naquela noite, com a família e amigos na sala, é a primeira vez que você vê alguém impaciente com o capítulo da novela. Você se sente meio artista, ganha até um tapinha nas costas. Começa a reportagem, a repórter surge na tela, microfone em punho - e você comenta que ela é mais bonita pessoalmente. Sua voz, alterada, ficou parecida com a de um personagem de desenho animado, você não se lembra qual. Todos se divertem na sala. Menos você, porque acabou de notar que aparece vestindo sua velha jaqueta, que tem nas costas uns desenhos coloridos e manjados. A entrevista dura uma eternidade, mas você já não presta atenção. Está pensando que nunca mais vai usar aquela jaqueta. Gosta muito dela. Seria um pecado ela ficar cheia de furos.
ESTRELA DA VIDA INTEIRA, Manuel Bandeira
agosto 26, 2010NAMORADOS
O rapaz chegou-se para junto da moça e disse:
- Antônia, ainda não me acostumei com o seu corpo, com a sua cara.
A moça olhou de lado e esperou.
- Você não sabe quando a gente é criança e de repente vê uma
lagarta listrada?
A moça se lembrava:
- A gente fica olhando…
A meninice brincou de novo nos olhos dela.
O rapaz prosseguiu com muita doçura:
- Antônia, você parece uma lagarta listrada.
A moça arregalou os olhos, fez exclamações.
O rapaz concluiu:
- Antônia, você é engraçada, você parece louca.
SUÍTE FRANCESA, Irène Némirovsky
agosto 23, 2010Ninguém, parecia-lhe, tinha sido atingido. Mas depois de uns instantes de caminhada viram os primeiros mortos, dois homens e uma mulher. Seus corpos estavam estraçalhados e, por mero acaso, os três rostos ficaram intactos, rostos tão banais, tão insípidos, com uma expressão espantada, aplicada e imbecil como se tentassem em vão compreender o que lhes acontecia, tão pouco preparados, meu Deus, para uma morte guerreira, tão pouco preparados para a morte. A mulher, em toda a sua vida, não devia ter pronunciado nada além de “os alhos-poró cresceram mais ainda” ou então “quem foi o porco que sujou meus ladrilhos?”.
Mas o que é que eu sei?, Jeanne pensou. Talvez houvesse tesouros de inteligência e ternura por trás daquela testa curta, sob aqueles cabelos opacos e soltos. O que somos aos olhos dos outros, Maurice e eu, senão um casal de pobres pequenos funcionários? Em certo sentido é verdade, em outro não é, pois somos preciosos e raros. Também sei disso. “Que desperdício imundo”.









