Posts Tagged ‘Daniel de Jesus’

DICAS ÚTEIS PARA UMA VIDA FÚTIL – Um manual para a maldita raça humana, Mark Twain

novembro 20, 2011

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NUM VELÓRIO

Não faça críticas à pessoa em cuja honra é dada a reunião.

Não faça observações sobre o acessório usado pela pessoa. Se as alças forem de alumínio, melhor fingir que não notou.

Se o cheiro das flores estiver muito forte, lembre-se que elas não foram enviadas para você e que a pessoa para quem foram enviadas está pouco se incomodando com as flores.

Ouça com a expressão mais atenta possível as declarações oficiais sobre a personalidade e a vida da pessoa homenageada com a reunião. Caso os dados não correspondam aos fatos, não cutuque o seu vizinho, não pise no pé dele, nem faça sinais para indicar que estão distribuindo balas aos presentes.

Se as informações sobre a pessoa homenageada na reunião forem exageradas, esqueça. Não interrompa o discurso.

Nos trechos emocionantes, emocione-se, sempre de acordo com sua intimidade com os que promovem a reunião, ou com a pessoa homenageada. No momento em que um parente soluça, um amigo íntimo deve se controlar e um estranho apenas procurar o lenço. Se a cerimônia for em honra de um militar, as emoções devem ser de acordo com o posto; o oficial mais graduado tem precedência no estupor emocional e os demais presentes conciliam seus sentimentos conforme o próprio status na cerimônia.

Não leve seu cachorro.

 

FACA, Ronaldo Correia de Brito

agosto 22, 2011

 

 

“— Um homem me pediu pouso. Era como você quando chegou aqui naquela primeira tarde. Sabia dele como sabia de você. Não perguntei nada e tratei das suas feridas. Os olhos dele não paravam de me fitar. Tinha fome e comeu muito. Quando dormiu, vi o seu abandono. Os homens, quando dormem, não escondem nada.”

 

“A faca correu pelas mãos de todos os ciganos. Quem a segurava, tremia. Pouco guardava do antigo brilho. Aquela luz cega de morte, que horrorizou Francisca e lhe deu força para lutar com os tios maternos.

— Eu compreendo o ódio de vocês — tentou falar calmo Anacleto Justino. — Mas respeitem a casa e as leis da hospitalidade. Sobretudo, quando esta hospitalidade é para um irmão.

Luiz e Pedro choravam. Pela primeira vez, desde que aprenderam que choro envergonha.”

 

O RETRATO DE DORIAN GRAY, Oscar Wilde

janeiro 17, 2011

 

— Basta, Basil. Está falando de coisas sobre as quais nada sabe — disse Dorian Gray mordendo os lábios, com expressão de infinito desprezo na voz. — Você me pergunta por que Berwick deixa a sala quando entro. É porque sei tudo a respeito de sua vida, não porque ele saiba alguma coisa da minha.  Com o sangue que lhe corre nas veias, como poderia ter uma vida limpa? Você me pergunta de Henry Ashton e do jovem Perth. Terei eu ensinado a um os seus vícios e ao outro seus desregramentos? Se o tolo filho de Kent toma por esposa uma mulher da rua, tenho algo a ver com isso? Se Adrian Sigleton falsifica a assinatura de um amigo, numa dívida, sou por acaso seu tutor? Sei bem como fala o povo, na Inglaterra. Os que pertencem à classe média ventilam seus preconceitos morais à mesa de jantar e cochicham sobre o que eles chamam a libertinagem de seus superiores, para fingir que frequentam a alta sociedade e tem intimidade com as pessoas que difamam. Neste país, basta um homem ter distinção e inteligência para que as línguas dos medíocres se agitem contra ele. E que espécie de vida leva esta gente que assume atitude moralista? Meu caro, você se esquece de que estamos na pátria dos hipócritas.

ODES DE RICARDO REIS, Fernando Pessoa

janeiro 12, 2011

LÍDIA

Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio,
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos.)

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer nao gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassosegos grandes.

Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar.

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podiamos,
Se quise’ssemos, trocar beijos e abrac,os e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento -
Este momento em que sossegadamente nao cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadência.

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-as de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crianças.

E se antes do que eu levares o o’bolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim – à beira-rio,
Pagã triste e com flores no regaço.

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