Posts Tagged ‘Cristina’

POEMAS, Francisco Alvim

setembro 19, 2010

GEMIDO

Este mundo

custa tanto a passar

a gente sofre tanto

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O ser humano é o seguinte

DON QUIJOTE DE LA MANCHA, Miguel de Cervantes

agosto 17, 2010

—Yo sé quién soy.

DUAS NARRATIVAS FANTÁSTICAS, Dostoiévski

agosto 12, 2010

O SONHO DE UM HOMEM RIDÍCULO

Por exemplo, ocorreu-me de repente a estranha consideração de que, se eu vivesse na lua, ou em Marte, e lá cometesse o ato mais canalha e mais desonesto que se possa imaginar, e lá fosse achincalhado e desonrado como só se pode sentir e imaginar às vezes dormindo, num pesadelo, e se, vindo parar depois na terra, eu continuasse a ter consciência do que cometi no outro planeta e, além disso, soubesse que nunca mais, de jeito nenhum, voltaria para lá, então, olhando a lua da terra – tudo me seria indiferente ou não?

CARTAS DE UM SEDUTOR, Hilda Hilst

agosto 11, 2010

Depois do jogo fiquei bebericando o meu uísque e palrando com algumas pentelhas, senhoras já velhuscas muito das dadeiras, das encapadas, das pombeiras. Sofrem de ócio. Sugeri-lhes que fundassem uma entidade à qual dei o nome de EGE, sigla do que viria a ser Esquadrão Geriátrico de Extermínio. Atividade: assassinar políticos corruptos, ladrões do povo, e editores de livros pop-corn gênero Jacqueline Susan, Jackie Collins, Daniele Steel. Até descobrirem que na hora h dos crimes havia sempre uma velhinha por perto com seu guarda-chuva ou bengala de ponta envenenada, ia levar tempo. O delegado: coincidência, senhores, coincidência, são diferentes velhinhas a cada crime, ou os senhores estão pensando que existe talvez um esquadrão geriátrico de extermínio? Ha ha, e todo mundo ri. Todo mundo competente.

O ENGENHOSO FIDALGO D. QUIXOTE DA MANCHA, Miguel de Cervantes

agosto 10, 2010

Fez-me o céu, de acordo com o que vós dizeis, formosa, e de tal maneira, que, sem poderdes fazer outra coisa, a que me ameis vos move minha formosura, e pelo amor que me mostrais dizeis e ainda quereis que esteja eu obrigada a amar-vos. Eu sei, com a natural razão que Deus me deu, que tudo o que é formoso é amável; mas não consigo compreender que, em razão de ser amado, esteja obrigado o que é amado por formoso a amar quem o ama. Mais ainda, poderia acontecer que o amador do formoso fosse feio, e, sendo o que é feio digno de ser aborrecido, mui mal seria o dizer “Amo-te por formosa: tens de amar-me ainda que seja feio”. Mas, no caso de serem parelhas as formosuras, nem por isso hão de ser parelhos os desejos, porque nem todas as formosuras enamoram: algumas alegram a vista e não rendem a vontade; se todas as belezas enamorassem e rendessem, seria um andarem as vontades confusas e desorientadas, sem saber em qual haveriam de parar, porque, sendo infinitos os sujeitos formosos, infinitos haviam de ser os desejos. E, de acordo com o que eu ouvi dizer, o verdadeiro amor não se divide, e há de ser voluntário, e não forçado. Sendo assim, como eu creio que o é, por que quereis que se renda minha vontade à força, obrigada tão somente por dizerdes que me amais? Se não, dizei-me: se assim como o céu me fez formosa me tivesse feito feia, seria justo que me queixasse de vós por não me amardes?

(…)

Aquele que me chama fera e basilisco deixe-me como a coisa prejudicial e má; aquele que me chama ingrata não me sirva; aquele que me chama mal-agradecida me desconheça; aquele que me chama cruel não me siga; porque esta fera, este basilisco, esta ingrata, esta cruel e esta mal-agradecida não os buscará, servirá, conhecerá nem seguirá de maneira alguma.

INFÂNCIA, J.M. Coetzee

junho 22, 2010

Os ataques contra a mãe são uma das coisas que ele precisa manter cuidadosamente em segredo do mundo exterior. Só eles quatro sabem das torrentes de desprezo que despeja sobre ela, tratando-a como uma inferior. “Se seus professores e seus amigos soubessem como você trata a sua mãe…”, diz o pai, balançando um dedo ameaçador. Ele odeia o pai por enxergar com tanta clareza a brecha em sua armadura.

PRIMEIRO AMOR, Samuel Beckett

junho 21, 2010

Ela começou a se despir. Quando não sabem mais o que fazer, elas se despem, e é decerto o melhor que têm a fazer. Ela tirou tudo com uma lentidão capaz de irritar um elefante, exceto as meias, destinadas sem dúvida a levar minha excitação ao auge. Foi então que vi que ela era vesga. Não era, felizmente, a primeira vez que eu via uma mulher nua, pude então ficar ali, sabia que ela não explodiria. Pedi para ver o outro quarto, pois ainda não o tinha visto. Se já tivesse visto diria que queria vê-lo de novo. Você não vai se despir?, disse ela. Oh, sabe, disse eu, raramente me dispo. Era verdade, eu nunca fui do tipo que se despe a torto e a direito.

(…)

Eu estava só enfim, na escuridão enfim. Não entrarei em detalhes. Acreditava ter partido para uma boa noite, apesar da estranheza do lugar, mas não, minha noite foi extremamente agitada. Acordei no dia seguinte quebrado, minhas roupas em desordem, as cobertas também, e Anne do meu lado, nua naturalmente. O que ela deve ter se desgastado! Eu continuava com o caldeirão na mão. Olhei dentro. Não tinha me servido dele. Olhei para meu sexo. Se ao menos ele soubesse falar. Não entrarei em detalhes. Essa foi a minha noite de amor.

AS INTERMITÊNCIAS DA MORTE, José Saramago

junho 18, 2010

De deus, que por obrigações de cargo está ao mesmo tempo no universo todo, porque de outro modo não teria qualquer sentido havê-lo criado, seria uma ridícula pretensão esperar que mostrasse um interesse especial pelo que acontece no pequeno planeta terra, o qual, aliás, e isto talvez a ninguém tenha ocorrido, é por ele conhecido sob um nome completamente diferente, mas a morte, esta morte que, como já havíamos dito páginas atrás, está adstrita à espécie humana com carácter de exclusividade, não nos tira os olhos de cima nem por um minuto, a tal ponto que até mesmo aqueles que por enquanto ainda não vão morrer sentem que constantemente o seu olhar os persegue.

ULISSES, James Joyce

junho 16, 2010

(…) o sol brilha para você ele disse no dia que a gente estava deitado entre os rododendros no cabeço do Howth no terno de tuíde cinza e chapéu de palha dele dia que levei ele a se propor a mim sim primeiro eu dei a ele um pouquinho do bolinho-de-cheiro da minha boca e era ano bissexto como agora sim dezasseis anos atrás meu Deus depois desse beijo longo eu quase perdi minha respiração sim ele disse que eu era uma flor da montanha sim assim a gente é uma flor todo o corpo de uma mulher sim essa foi uma coisa verdadeira que ele disse na vida dele e o sol brilha para você hoje isso foi por que eu gostei dele porque eu via que ele entendia ou sentia o que é uma mulher eu sabia que eu podia dar um jeito nele e eu dei a ele todo o prazer que eu podia levando ele até que ele me pediu pra dizer sim e eu não queria responder só olhando primeiro para o mar e o céu eu estava pensando em tantas coisas que ele não sabia de Mulvey e do Sr Stanhope e Hesier e meu pai e do velho capitão Grovas e os marinheiros brincando de coelho-sai e pula-carniça e lavar-pratos como eles chamavam no cais e o sentinela na frente da casa do Governador com a coisa em redor do capacete branco dele pobre diabo meio tomado e as garotas espanholas se rindo nos xailes e nas grandes travessas delas e os pregões da manhã os gregos e os judeus e os árabes e o diabo sabe quem mais de todos os confins da Europa e a Rua do Duque e o mercado de aves todas cacarejando em frente do Larby Sharon e os pobres dos burricos escorregando meio dormidos e os sujeitos vagos nas mantas dormitando na sombra nos degraus e as rodas grandes das carroças de touros e o velho castelo milhares de anos velho e aquèles mouros bonitos todos de branco e tuìbantes como reis pedindo à gente pra sentar nas lojinhas pequeninas deles e Ronda com as velhas janelas das posadas olhos vislumbrados em muxarabiê escondidos para o amante dela beijar o ferro e as bodegas de vinho meio abertas à noite e as castanholas e a noite que a gente perdeu o bote em Algeciras o vigia indo por ali sereno com a lanterna dele e oh aquela tremenda torrente profunda oh e o mar o mar carmesim às vezes como fogo e os poentes gloriosos e as figueiras nos jardins da Alameda sim e as ruazinhas esquisitas e casas rosas e azuis e amarelas e os rosais e os jasmins e gerânios e cactos e Gibraltar eu mocinha onde eu era uma Flor da montanha sim quando eu punha a rosa em minha cabeleira como as garotas andaluzas costumavam ou devo usar uma vermelha sim e como ele me beijou contra a muralha mourisca e eu pensei tão bem a ele como a outro e então eu pedi a ele com os meus olhos para pedir de novo sim e então ele me pediu quereria eu sim dizer sim minha flor da montanha e primeiro eu pus os meus braços em torno dele sim e eu puxei ele pra baixo pra mim para ele poder sentir meus peitos todos perfume sim o coração dele batia como louco e sim eu disse sim eu quero Sims.

GRANDE SERTÃO: VEREDAS, Guimarães Rosa

maio 28, 2010

Ah, lei ladra, o poder da vida. Direitinho declaro o que, durando todo tempo, sempre mais, às vezes menos, comigo se passou. Aquela mandante amizade. Eu não pensava em adiação nenhuma, de pior propósito. Mas eu gostava de, dia mais dia, mais gostava. Diga o senhor: como um feitiço? Isso. Feito coisa-feita. Era ele estar perto de mim, e nada me faltava. Era ele fechar a cara e estar tristonho, e eu perdia meu sossego. Era ele estar por longe, e eu só nele pensava. E eu mesmo não entendia então o que aquilo era? Sei que sim. Mas não. E eu mesmo entender não queria. Acho que. Aquela meiguice, desigual que ele sabia esconder o mais de sempre. E em mim a vontade de chegar todo próximo, quase uma ânsia de sentir o cheiro do corpo dele, dos braços, que à vezes adivinhei insensatamente – tentação dessa eu espairecia, aí rijo comigo renegava. Muitos momentos.

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