OS DUNGAS
Depois do Júlio todos os governantes de Roma passaram a ser césares, e “césar” – na forma de kaiser, tzar, etc. – ficou nome genérico, como um dia “dunga” também será. Os times terão zagueiros, laterais, médios, “dungas” e atacantes, e jogadores em estados ainda por nascer descreverão sua função ou sua ambição como “de dunga” – dunga pela direita, dunga pela esquerda, dunga avançado, dunga recuado… Havia dungas antes do Dunga, como houve césares antes de César, mas o protótipo dos dungas que virão é esse nosso, que aproveita comemoração de gol para dar bronca.
Todos os melhores times deste mundial têm o seu dunga, de uma forma ou de outra. Ou são jogadores que galvanizam o time com sua própria energia e empenho, e bronca, ou são os destruidores que liberam os companheiros para a criação, garantindo o rebote. Os franceses têm o Deschamps, os italianos têm o Dino Baggio, os alemães tem o Hamann, os argentinos têm o Verón… Marcel Desailly, o zagueiro francês que é possivelmente o melhor jogador da Copa 98 até agora, e Matthaeus, o mítico alemão que tiraram da cadeira de rodas e escalaram para dar vergonha ao time, têm credenciais para o título, mas são menos dunga do que Deschamps e Hamann. Justamente porque são brilhantes e têm certas pretensões estéticas, além do coração e da coragem, o que os desqualifica como dungas autênticos. A dungalogia tem suas sutilezas.
Os dungas são os caroços do time. Já não se concebe um time só polpa, por melhor que seja a polpa. Até no Brasil, que custou a aceitar a sua inevitabilidade, dá-se ao dunga o que é do dunga. O caroço dá forma ao time, garante a continuidade da sua alma e quebra os dentes de quem o ataca. Nenhuma seleção sem um dunga passou das oitavas.



