PEDEM QUE EU DIGA QUEM EU SOU
“—Ora, ora. Quem lhe soprou uma ideia tão boba?
— A ideia é minha, e de boba não tem nada — me enfureci. — Boba é essa cafoníssima menina com boneca de pano que o senhor pintou. E boba somente em sua pintura, pois na vida real… Chama-se Ajevni e, como todas as demais babakuanas, é uma criatura muito esperta e muito endiabrada, que se distingue por sua tendência de sentir grande despeito ou muito ciúme, o que dá no mesmo, de sentir muita inveja de tudo. E a inveja, se o senhor não sabe, é uma das paixões nacionais em Babàkua. E a inveja, se também não sabe, é uma das manifestações mais claras do verdadeiramente diabólico.
— Sinto muito, cavalheiro. Pintei essa menina doce e serena, nada invejosa. Apresento minhas desculpas. Mas é assim tão grave não tê-la pintado invejosa?
— Claro que é — disse energicamente. — Sobretudo levando em conta que o senhor sempre se gabou de pintar a realidade de Babàkua e, no entanto, ignora detalhes tão elementares como o de que em Babàkua todas as mulheres, sem exceção, morrem de inveja. Desde meninas, todas desejam ter a boneca de pano da sua melhor amiga. E quando se tornam adultas, querem todas ser o marido de sua melhor amiga. Desculpe. Quis dizer que invejam sua melhor amiga pelo marido que ela tem.
Novamente me presenteou com um incômodo sorrisinho de pedantismo, desta vez, sem dúvida, por causa da pequena confusão que fiz ao falar. Mas continuei como se nada tivesse acontecido.
— E por inveja — eu disse — os homens de Babàkua matam. Matam para ficar com a boneca de pano que menos lhes pareça.”
