
“O pai sempre se recusou a dizer, fazendo-se humilde, que “escreve umas coisinhas”, o álibi de quem se desculpa, de quem quer entrar no salão mas não recebeu convite. Nunca foi esse o seu caso; sempre viveu debaixo de uma autonomia agressiva, beirando a sociopatia; e ao mesmo tempo por muitos anos teve vergonha de se afirmar, intransitivo, um “escritor”, e a angústia maior vinha do fato de, durante década e meia, não ter nada para colocar no lugar quando lhe perguntavam o que fazia na vida; dizer “eu escrevo” seria confessar uma intimidade absurda, equivalente à da vida sexual ou à dos problemas da família, entregar o que se sonha no escuro, a massa disforme dos desejos; partilhar o hálito, confessar esse amontoado de palavras inúteis mas arrogantes, pretensiosas, papagaios empinados pela vaidade; durante todos esses anos sentiu o peso do ridículo de ser escritor, alguém que publica livros aos quais não há resposta, livros que ninguém lê; e que resistiu bravamente, e pelo menos nisso teve sucesso, ao consolo confortável, à coceira na língua, quase sempre calhorda, de despejar no mundo as culpas da própria escolha. É simplesmente um fato com o qual temos que lidar sozinhos, ele imaginava, escoteiro, anos a fio, camponês de si mesmo, girando no seu mundo de dez metros de diâmetro, até que se tornou professor, um trabalho, esse sim, que lhe pareceu realmente defensável, um trabalho que lhe valeu um suspiro de alívio, o álibi perfeito na vida – ele era, finalmente, alguém, e alguém até de alguma importância. Uma bela figura diante do quadro-negro! Isto é, ganhava algum dinheiro com o suor do seu rosto, como queria o seu pai e o pai de seu pai até o início e o fim dos tempos”.
