PREFÁCIO
Há muito tempo, durante oito dias, vivi cumulado pelos bens desse mundo: dormíamos sem teto, numa praia; eu me alimentava de frutas e passava a metade de meus dias em águas desertas. Aprendi, nessa época, uma verdade que me levou a receber os sinais do conforto, ou da instalação, com ironia, impaciência e, às vezes, com raiva. Se bem que viva, agora, sem preocupações com o dia de amanhã, portanto como um privilegiado, não sei possuir. Não consigo guardar o que tenho, e o que sempre me é oferecido sem que tenha buscado. Parece-me que é menos por prodigalidade do que por outro tipo de parcimônia: sou avarento com essa liberdade que desaparece assim que começa o excesso de bens. O maior dos luxos nunca deixou de coincidir, no meu caso, com um certo despojamento. Gosto da casa nua dos árabes ou dos espanhóis. O lugar em que prefiro viver e trabalhar (e, coisa mais rara, onde não me importaria de morrer) é o quarto de hotel. Jamais consegui entregar-me ao que se chama a vida de interiores (que, tantas vezes, é o contrário da vida interior); a chamada felicidade burguesa me entedia e me assusta. Esta incapacidade, de resto, nada tem de glorioso; não foi pouca sua contribuição para alimentar meus defeitos. Não invejo nada, o que é um direito meu, mas não penso sempre nas invejas dos outros, e isso me subtrai imaginação, isto é, bondade. É bem verdade que criei uma máxima para uso próprio: “É preciso colocar princípios nas grandes coisas; para as pequenas, basta a misericórdia.” Infelizmente, criamos máximas para preencher as lacunas da nossa própria natureza. No meu caso, a misericórdia de que falo chama-se, antes, indiferença. Seus efeitos, com certeza, são menos milagrosos.



