Por que não nos deram extensos
meses que durem todo o ano?
Conforme a lua subia no céu, as casas insignificantes passaram a se dissolver até que, pouco a pouco, meus pensamentos desaguaram na antiga ilha selvagem que surgira aos olhos dos marinheiros holandeses neste exato lugar – o seio verde e frondoso de um Novo Mundo. Suas árvores extintas, aquelas que cederam lugar à casa de Gatsby, outrora estimularam os sonhos derradeiros e mais ambiciosos dos homens; por um momento transitório e mágico, alguém deve ter prendido o fôlego à vista deste continente, compelido a uma contemplação estética que não compreendia e tampouco desejava, face a face, pela última vez na história, com algo proporcional à sua capacidade de maravilhar-se. Enquanto estava ali, remoendo esse velho e desconhecido mundo, pensei no assombro de Gatsby ao ver pela primeira vez a luz verde da extremidade do cais de Daisy. Ele havia percorrido um caminho enorme até chegar a esse jardim azulado, e seu sonho lhe deve ter parecido tão próximo que dificilmente o deixaria escapar.
(…)
Gatsby acreditava na luz verde, no futuro orgástico que, ano após ano, costuma recuar diante de nós. Ontem fomos iludidos, mas não importa – amanhã correremos mais rápido, esticando nossos braços mais além… E numa bela manhã…
E assim avançamos, botes contra a corrente, impelidos incessantemente de volta ao passado.
GUIA BREVE, PORÉM ÚTIL, À DESOBEDIÊNCIA CIVIL
Outros métodos de desobediência civil:
Concentrar-se em frente ao palácio do governo e gritar a palavra “Pudim” até que as exigências sejam atendidas.
Engarrafar o trânsito da cidade conduzindo um rebanho de carneiros pela avenida na hora do rush.
Telefonar a membros do establishment e cantar alguma canção de protesto ou de ninar.
Fazer-se passar por policial e então faltar ao serviço.
Disfarçar-se de alcachofra e dedurar o nome do Presidente da República aos serviços de informação.
Acamparam em uma plataforma baixa onde paredes de agregado seco assinalavam o antigo curso de um rio e montaram uma fogueira em torno da qual sentaram em silêncio, os olhos do cão e do idiota e de alguns outros homens cintilando vermelhos como brasas em suas órbitas quando viravam a cabeça. As chamas dançavam ao vento e os tições empalideciam e avivavam e empalideciam e avivavam como o batimento sanguíneo de alguma criatura viva eviscerada sobre o chão a sua frente e eles contemplavam o fogo que de fato contém em si parte do próprio homem pois que este o é menos sem ele e se vê separado de suas origens e se torna um exilado. Pois cada fogo é todos os fogos, o primeiro fogo e o último que um dia haverá de ser. Após algum tempo o juiz se levantou e se afastou para alguma missão obscura e depois de alguns instantes alguém perguntou ao ex-padre se era verdade que em certa época houvera duas luas no céu e o ex-padre espreitou a falsa lua sobre eles e disse que podia muito bem ser que sim. Mas decerto o sábio Deus altíssimo em sua consternação pela proliferação de lunáticos nessa terra devia ter lambido um polegar e se curvado lá no caos e beliscado o astro e o extinguido com um chiado. E acaso fosse capaz de encontrar algum outro meio pelo qual os pássaros pudessem corrigir suas rotas na escuridão ele o teria feito também com essa.
Foi proposta em seguida a questão de haver em Marte ou em outros planetas no vácuo homens ou criaturas como eles e nesse ponto o juiz que voltara para junto do fogo e estava ali de pé seminu e suando falou e afirmou que não havia e que não existiam homens em parte alguma do universo salvo os que se encontravam sobre a Terra. Todos ouviram conforme falava, os que se viraram para observá-lo e os que não o fizeram.
A verdade sobre o mundo, disse, é que tudo é possível. Não o houvessem visto todos vocês desde o nascimento e desse modo o dessecado de toda sua estranheza ele se lhes revelaria tal como é, um truque com cartola num espetáculo mambembe, um sonho febril, um transe superpovoado de quimeras sem análogo nem precedentes, um parque de diversões itinerante, uma feira ambulante cujo destino último após incontáveis tendas erguidas em incontáveis terrenos barrentos é inexprimível e calamitoso além de todo entendimento.
O universo não é coisa que conheça alguma restrição e a ordem que nele reina não é compelida por qualquer latitude em sua concepção a repetir o quer que exista em uma parte em qualquer outra dada parte. Mesmo neste mundo mais coisas existem sem nosso conhecimento do que com ele e a ordem que vocês enxergam na criação é a que vocês mesmo puseram ali, como um fio em um labirinto, de modo a não se perder do caminho. Pois a existência tem sua própria ordem e esta nenhuma mente humana pode abarcar, sendo a própria mente apenas mais um fato entre outros.
Apertava as folhas de árvores e plantas em seu livro e tocaiava as borboletas da montanha na ponta dos pés segurando a camisa esticada com as duas mãos, falando com elas aos sussurros, não menos um curioso objeto de investigação ele próprio. Toadvine sentava observando-o enquanto fazia suas anotações no caderninho, segurando o livro na direção do fogo em busca de luz, e perguntou qual era seu propósito naquilo tudo.
A pena do juiz parou de riscar. Olhou para Toadvine. Então continuou a escrever.
Toadvine cuspiu no fogo.
O juiz continuou a escrever e depois fechou o livro e o deixou de lado e juntou as mãos e passou-as sobre o nariz e a boca e pousou a palma das mãos sobre os joelhos.
Tudo que existe, disse. Tudo que na criação existe sem meu conhecimento existe sem meu consentimento.
Olhou em torno da floresta escura onde estavam bivacados. Apontou a cabeça na direção dos espécimes que coletara. Essas criaturas anônimas, disse, talvez pareçam pequenas ou coisa nenhuma no mundo. Mas a menor migalha pode nos devorar. Qualquer coisinha minúscula debaixo dessa pedra aí que não seja do conhecimento do homem. Só a natureza pode escravizar o homem e só quando a existência da última entidade tiver sido desencavada e exposta diante dele é que ele se tornará do modo apropriado o suserano da terra.
O que é suserano?
Um guardião. Um guardião ou senhor.
Por que não diz guardião então?
Porque ele é um tipo especial de guardião. Um suserano governa até onde há outros governantes. Sua autoridade revoga qualquer deliberação local.
Toadvine cuspiu.
O juiz pôs as mãos no chão. Olhou para seu inquiridor. Isso é o que reivindico, disse. E contudo por toda parte existem bolsas de vida autônoma. Autônoma. Para que isso possa ser meu nada deve ter permissão de acontecer sobre ela a não ser por minha determinação.
Toadvine sentou com as botas cruzadas diante do fogo. Homem nenhum pode tomar conhecimento de tudo que existe sobre a terra, disse.
O juiz inclinou a enorme cabeça. O homem que acredita que os segredos do mundo estão escondidos para sempre vive em mistério e medo. A superstição o arrasta para o fundo. A erosão da chuva vai apagar os feitos de sua vida. Mas o homem que impõe a si mesmo a tarefa de descoser o fio que ordena a tapeçaria terá mediante a mera decisão assumido o comando do mundo e é somente assumindo o comando que levará a efeito um modo de ditar os termos de seu próprio destino.
Não vejo o que isso tem a ver com pegar passarinho.
A liberdade dos pássaros me insulta. Por mim estavam todos num zoológico.
Ia ser um diabo de zoológico.
O juiz sorriu. É, disse. Que seja.
E eu já vi de tudo nos campos de futebol.
Já vi valente tremer.
Já vi covarde virar herói.
Vi até ateu rezar.
E já vi, sim, eu vi, um cego no Mineirão “assistindo“ a um jogo do Galo.
- Quem é você, cego, que está usando esta camisa alvinegra?
Eu sou Antônio Paulo, cego de nascença.
Que mistério é esse cego: o que um cego está fazendo aqui no Mineirão ?
- Estou torcendo pelo Galo Forte e Vingador.
Mas como um cego pode torcer em uma partida de futebol?
Me explique, como você sabe se o Atlético está jogando mal ou bem?
- Eu sei porque quando o Galo está com a bola eu ouço um barulho tão grande que parece que o mundo vai acabar.
PROCON DIVINO
Os assassinos, os molestadores, os tiranos, os que pagam as contas privadas com dinheiro público e os que empregam a família no senado; com esses não há que se preocupar, já estão na listinha que Deus e seu capataz, o Diabo, levam no bolso da frente. Há outros, contudo, mais discretos – mas nem por isso menos nocivos – que talvez passem despercebidos. Por eles elevo minhas preces: que a ira divina não os esqueça, no dia em que o céu finalmente cair sobre nossas cabeças.
Fabricantes de papel higiênico rosa: vaguai pelo além vestindo mantos de lixa, secai vossos corpos com toalhas de língua de pirarucu e limpai vossos umbigos com cotonetes de mamona, pois que menor castigo não merecem os que obrigam seus semelhantes, encurralados em cubículos fétidos, a se auto-penitenciarem com o mais torpe fruto da celulose.
Engenheiros aeronáuticos que projetastes as poltronas da classe econômica e magnatas da aviação que fumais vossos charutos comprados com a bufunfa dos enlatados passageiros: que vós reencarneis como bonsais, pois que só a vida centenária de um carvalho num vasinho de dez centímetros pode se equiparar a oito horas em vossas aeronaves.
Produtores de mostarda vagabunda, que prometeis sabor e entregais papas arenosas de amido de milho: boiai pela eternidade em oceanos de mingau, não vendo nenhuma terra firme além de icebergs de tofu, que escalareis com as mandíbulas, pois que nada nessa vida é de tanto mau gosto como falta de gosto que vós multiplicais.
Vendedores de chuveiro elétrico, que prometeis temperatura e pressão ao mesmo tempo: que a vós sejam reservados boxes de gelo nas calotas polares dos infernos, onde ficareis para sempre a girar para lá e para cá um registro, recebendo ora um fiozinho de óleo fervente no cocuruto, ora uma ducha de água fria na espinhela, pois que não existe na história da hidráulica falácia maior do que temperatura e pressão ao mesmo tempo – “a nível de” chuveiro elétrico.
Vós, que fazeis cortadores de unha que não cortam, tremei: que vossas unhas cresçam à velocidade de dez centímetros por minuto, e que não tenhais para apará-las mais do que os dentes que há na boca, e que o tempo seja inteiramente ocupado na ação de roê-las, e que sejais como coelhos com cenouras, sendo vós tanto os coelhos quanto as cenouras, pois há na vida poucas aflições maiores do que ter a unha dobrada sob a lâmina cega de vossos cortadores.
E que todos os outros, tantos outros, que tirais vossos salários do amesquinhamento do mundo, que semeais o incômodo, a frustração e a dificuldade, e que sabeis que o que fazeis é ruim: lembrai-vos da ira divina, e assustai-vos com o fogo do inferno, e arrependei-vos, pois que ainda é tempo!
Fomos até o lago, atendendo ao desejo do caro menino. Ele levou a pequena embarcação que seu tio Nat fizera para ele há muito tempo, e que, desde ontem, tem sido seu brinquedo favorito. Lançou-a no lago e ela se parecia muito com uma chalupa de verdade, agitando-se de um lado para outro, em meio às ondas que se formavam. Acredito que ele passaria cem anos, mais ou menos, muito satisfeito, sem nenhum outro divertimento a não ser aquele. Eu, enquanto isso, tirei do bolso a National Era e a li com bastante atenção. Já constatei antes que a melhor maneira de obter uma impressão e sentimento vívidos de uma paisagem é sentar-se diante dela e ler, ou absorver-se em pensamentos: pois então, quando os olhos da pessoa são por acaso atraídos pela paisagem, parecem pegar a natureza desprevenida e vê-la antes que ela tenha tempo de mudar seu aspecto. O efeito não dura senão um rápido instante, e desaparece quase na mesma hora em que a pessoa toma consciência dele; mas é real, durante aquele momento. É como se a pessoa pudesse ouvir por alto e entender o que as árvores estão sussurrando entre elas, é como se pudéssemos dar uma rápida olhada num rosto sem véu, que se vela diante de todos os olhares intencionais. O mistério é revelado e, após uma ou duas respirações, volta a ser o mesmo mistério de antes.
Deixem-me dizer abertamente, só esta vez, que ele é um menino doce e adorável e digno de todo o amor que sou capaz de lhe dar. Graças a Deus! Que Deus o abençoe! Que Deus abençoe Febe por dá-lo a mim! Que Deus a abençoe como a melhor esposa e mãe do mundo! Que Deus abençoe Una, que anseio por tornar a ver! Que Deus abençoe a pequena Botão de Rosa! Que Deus me abençoe, por causa de Febe e de todos eles! Nenhum outro homem tem esposa tão boa, ninguém tem filhos melhores. Gostaria de ser mais merecedor dela e deles!
Minhas noites são todas melancólicas, tão solitárias e sem livros que eu esteja com estado de espírito para ler, e esta noite foi como o resto. Então, fui para a cama por volta das nove horas e tive saudade de Febe.