Arquivo por Autor

SEDA, Alessandro Baricco

maio 2, 2012

Baldabiou ficou a ouvir, em silêncio, até o fim, até o trem de Eberfeld.

Não pensava nada.

Escutava.

Sentiu-se mal, no final, ao ouvir Hervé Joncour dizer devagar:

- Nem ao menos ouvi a sua voz.

E pouco depois:

- É uma dor estranha.

Devagar.

Morrer de nostalgia por algo que nunca se viverá.

DICAS ÚTEIS PARA UMA VIDA FÚTIL – Um manual para a maldita raça humana, Mark Twain

novembro 20, 2011

Image

 

NUM VELÓRIO

Não faça críticas à pessoa em cuja honra é dada a reunião.

Não faça observações sobre o acessório usado pela pessoa. Se as alças forem de alumínio, melhor fingir que não notou.

Se o cheiro das flores estiver muito forte, lembre-se que elas não foram enviadas para você e que a pessoa para quem foram enviadas está pouco se incomodando com as flores.

Ouça com a expressão mais atenta possível as declarações oficiais sobre a personalidade e a vida da pessoa homenageada com a reunião. Caso os dados não correspondam aos fatos, não cutuque o seu vizinho, não pise no pé dele, nem faça sinais para indicar que estão distribuindo balas aos presentes.

Se as informações sobre a pessoa homenageada na reunião forem exageradas, esqueça. Não interrompa o discurso.

Nos trechos emocionantes, emocione-se, sempre de acordo com sua intimidade com os que promovem a reunião, ou com a pessoa homenageada. No momento em que um parente soluça, um amigo íntimo deve se controlar e um estranho apenas procurar o lenço. Se a cerimônia for em honra de um militar, as emoções devem ser de acordo com o posto; o oficial mais graduado tem precedência no estupor emocional e os demais presentes conciliam seus sentimentos conforme o próprio status na cerimônia.

Não leve seu cachorro.

 

NINGUÉM ESCREVE AO CORONEL, Gabriel García Márquez

agosto 26, 2011

Viu o galo amarrado no suporte do fogareiro e desta vez lhe pareceu um animal diferente. A mulher também olhou-o.

- Hoje à tarde tive de espantar os meninos com um cacete – comentou. – Trouxeram uma galinha velha para cruzar com ele.

- Não é a primeira vez – disse o Coronel. – Faziam isso mesmo nos povoados com o coronel Aureliano Buendía. Levavam para ele mocinhas para acasalar.

Ela celebrou a ocorrência. O galo emitiu um som gutural que chegou até o corredor como uma surda conversação humana.

- Às vezes eu penso que esse bicho vai falar – comentou ela.

O Coronel observou-o mais uma vez.

- Trata-se de um galo cantante e sonante – argumentou. Fez cálculos enquanto sorvia uma colherada de canjica. – Ele ainda vai dar de comer à gente por uns três anos.

- Ilusão não se come – preveniu a mulher.

- Não se come, mas alimenta – replicou. – É algo assim milagroso como as pastilhas do meu compadre Sabas.

BARTLEBY, O ESCRIVÃO, Herman Melville

agosto 25, 2011

 

É tão verdadeiro e ao mesmo tempo tão terrível o fato de que, ao vermos ou presenciarmos a miséria, os nossos melhores sentimentos são despertados até um certo ponto; mas, em certos casos especiais, não passam disso. Erram os que afirmam que é devido apenas ao egoísmo inerente ao coração humano. Na verdade, provém de uma certa impotência em remediar um mal excessivo e orgânico. Para uma pessoa sensível, a piedade é quase sempre uma dor. Quando afinal percebe que tal piedade não significa um socorro eficaz, o bom senso compele a alma a desvencilhar-se dela.

FACA, Ronaldo Correia de Brito

agosto 22, 2011

 

 

“— Um homem me pediu pouso. Era como você quando chegou aqui naquela primeira tarde. Sabia dele como sabia de você. Não perguntei nada e tratei das suas feridas. Os olhos dele não paravam de me fitar. Tinha fome e comeu muito. Quando dormiu, vi o seu abandono. Os homens, quando dormem, não escondem nada.”

 

“A faca correu pelas mãos de todos os ciganos. Quem a segurava, tremia. Pouco guardava do antigo brilho. Aquela luz cega de morte, que horrorizou Francisca e lhe deu força para lutar com os tios maternos.

— Eu compreendo o ódio de vocês — tentou falar calmo Anacleto Justino. — Mas respeitem a casa e as leis da hospitalidade. Sobretudo, quando esta hospitalidade é para um irmão.

Luiz e Pedro choravam. Pela primeira vez, desde que aprenderam que choro envergonha.”

 

BARTLEBY, O ESCRIVÃO, Herman Melville

julho 18, 2011

Alguns dias mais tarde, Bartleby terminou quatro documentos longos, quatro cópias de depoimentos prestados diante de mim, durante uma semana, na Suprema Corte. Era necessário conferi-los. Era uma tarefa importante, que exigia precisão. Depois de arrumar tudo, chamei Turkey, Nippers e Ginger Nut da sala ao lado, pensando em dar quatro cópias aos meus quatro funcionários, enquanto eu leria o original. Assim, Turkey, Nippers e Ginger Nut sentaram-se em fila, todos com o seu documento na mão, quando então chamei Bartleby para se juntar a esse curioso grupo.

“Bartleby, depressa! Estou esperando.”

Ouvi um lento arrastar da cadeira no chão sem tapete, e logo ele apareceu, parando na entrada do seu eremitério.

“O que deseja?”, perguntou, dócil.

“As cópias, as cópias! Nós vamos conferi-las. Tome aqui!”, eu disse apressado, estendendo-lhe a quarta cópia.

“Acho melhor não”, ele disse, desaparecendo silenciosamente atrás do biombo.

Por um instante, fiquei como uma estátua de sal à frente da fileira de funcionários sentados. Recompondo-me, dei uns passos na direção do biombo e exigi uma explicação para comportamento tão estranho.

“Por que se recusa?”

“Acho melhor não.”

Com qualquer outro homem, eu teria tido imediatamente um acesso de raiva e o teria expulsado, desprezando quaisquer explicações. Mas havia algo em Bartleby que não apenas me desarmou, como também me comoveu e desconcertou, de maneira assombrosa. Pus-me a raciocinar com ele.

“Estas são as suas próprias cópias que vamos conferir. Vai lhe poupar trabalho, porque basta uma averiguação para os seus quatro documentos. Isso é de praxe. Todo copista tem a obrigação de conferir a sua cópia. Não é? Não vai falar nada? Responda!”

“Acho melhor não”, respondeu num tom agudo.

Parecia que, enquanto eu falava com ele, Bartleby analisava com cuidado cada palavra que eu proferia, compreendia o que eu queria dizer, não conseguia se opor à conclusão irresistível, mas, ao mesmo tempo, uma razão superior o levava a responder daquela forma.

“Então, está decidido a não atender o meu pedido – um pedido feito segundo o costume e o bom senso?”

Ele me deu a entender laconicamente que o meu raciocínio era razoável. Mas que a sua decisão era irreversível.

A LIBÉLULA DE SEUS OITO ANOS, Martin Page

março 14, 2011

Fio não chorou. Tinha perdido entes queridos tão jovem, que já se acostumara antecipadamente com o desaparecimento das pessoas que amava. Quando começou a sentir que Zora se tornara sua amiga, tempos atrás, chorou, então, por conta do dia em que a perderia, e já tinha construído uma pequena sepultura para ela no cemitério do seu coração. Fio não acreditava em Deus, mas sabia também que o ateísmo é uma quimera. Inventara, então, as suas próprias crenças. Arrancou uma violeta num canteiro de Buttes-Chaumont, pois, segundo a sua mitologia íntima, quando se colhia uma flor pensando numa pessoa amada e falecida, o seu perfume e a sua beleza se tranferiam para o além.

NÃO FALEI, Beatriz Bracher

setembro 22, 2010

(que alegria!!)

Meu, minha, meu, como uma criança pequena aprendendo a fala da tribo, encontro-me nessa fase de aquisição de uma nova linguagem uma vez que a antiga, a que sabia e usei, suas palavras parecem ter se tornado estéreis, foram discutidas, aceitas e transformadas em algo que não reconheço mais. Por isso meu copo, meu pão, minha ira, meus sessenta e quatro anos. Como se precisasse novamente nomear e tomar posse do que levo comigo. Retornar à primeira pessoa e ao possessivo, as duas pragas juvenis que a modernidade nos legou e contra as quais sinceramente me bati. O bilhete de José dizia da mesma necessidade mas num sentido todo inverso ao meu. Fala em rememorar e eu penso em criar; pensa em descobrir e eu preciso fundar. O bilhete trouxe-me paz, afastou de mim aquela indignação pueril dos últimos dias, vibrante e frívola que me obstruía a reflexão deixando-me órfão nas mãos da reação. Seu tom machadiano, que José anda lá cultivando de tal modo que alcança o plágio por um percurso paradoxalmente pessoal, reavivou a alegria, a mesma de quando, em meio a um raciocínio complexo sobre o específico de uma composição, somos surpreendidos pelo canto de um passarinho. Talvez já cantasse há tempo, talvez seu cantar tenha adentrado manso as reviravoltas do raciocínio, mas o percebemos de supetão, nascido junto com a nossa alegria inesperada ao ouvi-lo. Arranca-nos para fora, destrói sem deixar rastros o fio que laboriosamente construíamos, entrega-nos apenas à nossa alegria de ouvir um passarinho. E, não raro, quando nos damos conta da alegria e do fio perdido e suspiramos resignados em recomeçar o trabalho, a solução aparece tão limpida e inesperada quanto o canto. Assim as palavras de José, “tal faço eu, à medida que me vai lembrando e convindo à construção  ou reconstrução de mim mesmo” (Machado por José).

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.