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A FERA NA SELVA, Henry James

maio 8, 2013

A Fera na Selva

– Você me contou que sempre teve, desde os primeiros tempos, como a coisa mais profunda dentro de você, a sensação de estar sendo poupado para algo raro e estranho, talvez prodigioso e terrível, que mais cedo ou mais tarde acabaria acontecendo.

A DESOBEDIÊNCIA CIVIL, Henry David Thoreau

maio 8, 2013

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Não pago imposto individual há seis anos. Por causa disso, certa vez, fui colocado na cadeia por uma noite. E, enquanto contemplava as sólidas paredes de pedra, com dois ou três pés de espessura, a porta de madeira e ferro, com um pé de espessura, e a grade de ferro que filtrava a luz, não pude deixar de ficar impressionado com a insensatez daquela instituição que me tratava como se eu fosse um mero amontoado de carne, sangue e ossos, pronto pra ser aprisionado. Estranhei que ela tenha concluído, por fim, que aquele fosse o melhor uso que poderia fazer de mim e que não tenha pensado em aproveitar-se de meus serviços de algum modo. Vi que, se havia um muro de pedra entre eu e meus concidadãos, havia um outro ainda mais difícil de galgar e transpor para que eles pudessem tornar-se tão livres quanto eu. Não me senti aprisionado sequer por um momento e aqueles muros pareceram-me um enorme desperdício de pedra e argamassa. Sentia-me como se apenas eu, entre todos meus concidadãos, tivesse pago o imposto. Eles claramente não sabiam como tratar-me mas portavam-se como pessoas mal-educadas. Em cada ameaça e em cada cumprimento havia um disparate, por pensarem que meu maior desejo era estar do outro lado daquele muro de pedra. Eu não podia senão sorrir ao ver quão diligentemente fechavam a porta às minhas meditações, que os perseguiam totalmente desimpedidas, e eles é que eram, na verdade, tudo de perigoso. Como não podiam alcançar-me, resolveram punir meu corpo; como meninos que, não conseguindo atacar alguém que odeiam, maltratam-lhe o cão. Vi que o Estado era irresponsável, tímido como uma mulher solitária com suas colheres de prata, e que não sabia distinguir seus amigos de seus inimigos, e perdi o resto de respeito que ainda nutria por ele, e tive pena dele.

Portanto, o Estado nunca enfrenta intencionalmente a consciência intelectual ou moral de um homem, mas apenas seu corpo, seus sentidos. Não está equipado com inteligência ou honestidade superiores, mas com força física superior. Não nasci para ser forçado a nada. Respirarei a meu próprio modo. Vejamos quem é o mais forte.

RATOS E HOMENS, John Steinbeck

maio 8, 2013

SteinbeckMiceAndMen

A mulher de Curley estava lá deitada, meio tapada por um cobertor de feno amarelo. E a maldade e os estratagemas e o descontentamento e a ânsia por atenção já não faziam mais parte do rosto dela. Ela era muito bonita e simples, e o rosto dela era doce e jovem. Suas bochechas avermelhadas e os lábios pintados faziam com que ela parecesse viva, dormindo um sono bem leve. Os cachos, como salsichinhas pequeninas, espalhavam-se por sobre o feno atrás da cabeça dela, e seus lábios estavam entreabertos.

Como de vez em quando acontece, um momento se instalou ali e ficou pairando. O som cessou, e o movimento parou – por muito, muito mais do que um momento.

GUERRA E PAZ, Liev Tolstói

novembro 18, 2012

- Voilà une belle mort – disse Napoleão, olhando para Bolkónski.
O príncipe Andrei entendeu que as palavras se referiam a ele e que foram ditas por Napoleão. Observou que quem falava tais palavras foi tratado de sire. Mas ouviu aquelas palavras da mesma forma como ouviria o zumbido de uma mosca. Não só não se interessou como nem se deu conta daquelas palavras e esqueceu-as imediatamente. Sua cabeça queimava; sentia que perdia sangue e via, acima o céu distante, alto e eterno. Sabia que era Napoleão – o seu herói; mas naquele instante Napoleão lhe parecia um homem tão pequeno, insignificante, em comparação com o que se passava, agora, entre a sua alma e aquele céu alto e infinito, com nuvens que fugiam. Quem estava ao seu lado e o que falasse a seu respeito, isso era de todo indiferente para Andrei naquele instante; só estava contente porque pessoas haviam parado perto dele e só desejava que tais pessoas o ajudassem e o devolvessem à vida, que lhe parecia tão bela, pois agora ele a compreendia de um moedo muito diferente. Reuniu todas as suas forças para mexer-se e emitir algum som. Moveu ligeiramente a perna e soltou um gemido fraco, dolorido, que causou pena nele próprio.

AS COISAS, George Perec

novembro 18, 2012

Como fazer fortuna? Era um problema insolúvel. No entanto, todo dia, parecia que indivíduos isolados conseguiam, por sua própria conta, resolvê-lo perfeitamente. E esses exemplos a seguir, eternos fiadores do vigor intelectual e moral da França, de rostos sorridentes e ajuizados, espertos, voluntariosos, cheios de saúde, de decisão, de modéstia, eram outras tantas imagens pias para a paciência e o governo dos outros, aqueles que estagnam, marcam passo, não se soltam, mordem os lábios na poeira.

AS COISAS, George Perec

novembro 18, 2012

Gostariam de ter sido ricos. Acreditavam que teriam sabido sê-lo. Saberiam ter se vestido, olhado, sorrido como gente rica. Teriam tido o tato, a discrição necessária. Teriam esquecido sua riqueza, teriam sabido não ostentá-la. Não teriam se glorificado com ela. Apenas a teriam respirado. Seus prazeres teriam sido intensos. Gostariam de ter andado, flanado, escolhido, apreciado. Gostariam de ter vivido. A vida teria sido uma arte de viver.

BARTLEBY, O ESCRIVÃO, Herman Melville

agosto 25, 2011

É tão verdadeiro e ao mesmo tempo tão terrível o fato de que, ao vermos ou presenciarmos a miséria, os nossos melhores sentimentos são despertados até um certo ponto; mas, em certos casos especiais, não passam disso. Erram os que afirmam que é devido apenas ao egoísmo inerente ao coração humano. Na verdade, provém de uma certa impotência em remediar um mal excessivo e orgânico. Para uma pessoa sensível, a piedade é quase sempre uma dor. Quando afinal percebe que tal piedade não significa um socorro eficaz, o bom senso compele a alma a desvencilhar-se dela.

O TEATRO DAS IDEIAS, Bernard Shaw

maio 18, 2011

Já podemos, assim que tivermos força de espírito para tanto, livrar-nos do absurdo do nirvana, do pessimismo, do racionalismo, da teologia e de todos os outros subterfúgios aos quais nos agarramos por medo de olhar a vida de frente e nela ver não a realização de uma lei moral ou das deduções da razão, mas a satisfação de uma paixão que vem de dentro de nós e da qual não podemos nunca prestar contas. É natural que o homem se encolha diante da terrível responsabilidade que esse fato inexorável atira sobre ele. Todas as desculpas de seu acervo dissolvem-se diante de tal fato – “A mulher me tentou”; “A serpente me tentou”; “Não estava em mim naquela hora”; “Não queria fazer mal”; “Minha paixão falou mais alto que a razão”; “Era meu dever fazê-lo”; “A Bíblia diz que devemos fazê-lo”; “Todo mundo faz”; e coisas assim. Nada resta senão a confissão franca: “Fiz porque sou assim”. Todos detestam dizer isso. Querem acreditar que seus atos generosos são sua característica verdadeira e que suas maldades são aberrações ou produtos da força das circunstâncias.

A DOENÇA DA MORTE, Marguerite Duras

abril 3, 2011

O choro a acorda. Ela te olha. Olha o quarto. E de novo ela te olha. Acaricia a tua mão. Ela pergunta: Você chora por quê? Você diz que cabe a ela dizer por que você chora, que ela é que deveria saber.

Ela responde baixinho, com doçura: Porque você não ama. Você responde que é isso.

Ela pede a você que lhe diga claramente. Você lhe diz: Eu não amo.

Ela diz: Nunca?

Você diz: Nunca.

Ela diz: O desejo de estar prestes a matar um amante, de guardá-lo para si, só para si, de arrebatá-lo, de roubá-lo a contrapelo de todas as leis, de todos os impérios da moral, você não sabe o que é isso, você nunca soube?

Você diz: Nunca.

Ela te olha, ela repete: É curioso um morto.

MARCOVALDO OU AS ESTAÇÕES NA CIDADE, Italo Calvino

dezembro 24, 2010

Os brinquedos, espalhados em cima de um grande tapete, eram tantos como numa loja de brinquedos, sobretudo complicados engenhos eletrônicos e modelos de astronaves. Sobre o tapete, num canto livre, encontrava-se um menino deitado, de bruços, aparentando nove anos, com uma expressão amuada e entediada. Folheava um livro ilustrado, como se tudo aquilo que havia ao redor não lhe dissesse respeito.
- Gianfranco, vamos, Gianfranco – disse a governanta -, viu que Papai Noel está de volta com outro presente?
- Trezentos e doze – suspirou o menino sem erguer os olhos do livro. – Coloque ali.
- É o tricentésimo décimo segundo presente que chega – disse a governanta – Gianfranco é tão esperto que conta todos, sua grande paixão é contar.
Na ponta dos pés, Marcovaldo e Michelino saíram da casa.
- Papai, aquele é um menino pobre? – perguntou Michelino.
Marcovaldo estava ocupado realocando em ordem os pacotes e não respondeu logo. Mas, depois de um instante, apressou-se em protestar:
- Pobre? Que está dizendo? Sabe quem é o pai dele? É o presidente da União para o Incremento das Vendas Natalinas!

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