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O TEATRO DAS IDEIAS, Bernard Shaw

maio 18, 2011

Já podemos, assim que tivermos força de espírito para tanto, livrar-nos do absurdo do nirvana, do pessimismo, do racionalismo, da teologia e de todos os outros subterfúgios aos quais nos agarramos por medo de olhar a vida de frente e nela ver não a realização de uma lei moral ou das deduções da razão, mas a satisfação de uma paixão que vem de dentro de nós e da qual não podemos nunca prestar contas. É natural que o homem se encolha diante da terrível responsabilidade que esse fato inexorável atira sobre ele. Todas as desculpas de seu acervo dissolvem-se diante de tal fato – “A mulher me tentou”; “A serpente me tentou”; “Não estava em mim naquela hora”; “Não queria fazer mal”; “Minha paixão falou mais alto que a razão”; “Era meu dever fazê-lo”; “A Bíblia diz que devemos fazê-lo”; “Todo mundo faz”; e coisas assim. Nada resta senão a confissão franca: “Fiz porque sou assim”. Todos detestam dizer isso. Querem acreditar que seus atos generosos são sua característica verdadeira e que suas maldades são aberrações ou produtos da força das circunstâncias.

A DOENÇA DA MORTE, Marguerite Duras

abril 3, 2011

O choro a acorda. Ela te olha. Olha o quarto. E de novo ela te olha. Acaricia a tua mão. Ela pergunta: Você chora por quê? Você diz que cabe a ela dizer por que você chora, que ela é que deveria saber.

Ela responde baixinho, com doçura: Porque você não ama. Você responde que é isso.

Ela pede a você que lhe diga claramente. Você lhe diz: Eu não amo.

Ela diz: Nunca?

Você diz: Nunca.

Ela diz: O desejo de estar prestes a matar um amante, de guardá-lo para si, só para si, de arrebatá-lo, de roubá-lo a contrapelo de todas as leis, de todos os impérios da moral, você não sabe o que é isso, você nunca soube?

Você diz: Nunca.

Ela te olha, ela repete: É curioso um morto.

MARCOVALDO OU AS ESTAÇÕES NA CIDADE, Italo Calvino

dezembro 24, 2010

Os brinquedos, espalhados em cima de um grande tapete, eram tantos como numa loja de brinquedos, sobretudo complicados engenhos eletrônicos e modelos de astronaves. Sobre o tapete, num canto livre, encontrava-se um menino deitado, de bruços, aparentando nove anos, com uma expressão amuada e entediada. Folheava um livro ilustrado, como se tudo aquilo que havia ao redor não lhe dissesse respeito.
- Gianfranco, vamos, Gianfranco – disse a governanta -, viu que Papai Noel está de volta com outro presente?
- Trezentos e doze – suspirou o menino sem erguer os olhos do livro. – Coloque ali.
- É o tricentésimo décimo segundo presente que chega – disse a governanta – Gianfranco é tão esperto que conta todos, sua grande paixão é contar.
Na ponta dos pés, Marcovaldo e Michelino saíram da casa.
- Papai, aquele é um menino pobre? – perguntou Michelino.
Marcovaldo estava ocupado realocando em ordem os pacotes e não respondeu logo. Mas, depois de um instante, apressou-se em protestar:
- Pobre? Que está dizendo? Sabe quem é o pai dele? É o presidente da União para o Incremento das Vendas Natalinas!

AS ARMAS SECRETAS, Julio Cortázar

dezembro 22, 2010

 

AS BABAS DO DIABO

Nunca se saberá como isto deve ser contado, se na primeira ou na segunda pessoa, usando a terceira do plural ou inventando constantemente formas que não servirão para nada. Se fosse possível dizer: eu viram subir a lua, ou: em mim nos dói o fundo dos olhos, e principalmente assim: tu mulher loura eram as nuvens que continuam correndo diante de meus teus seus nossos vossos seus rostos. Que diabo.

A VIDA COMO ELA É, Nelson Rodrigues

dezembro 21, 2010

– Sua mulher anda fazendo os piores papéis. Ou você ignora? – E, já com os olhos turvos, uma vontade doida de chorar, interpelava-o: – Você é ou não é homem?

Foi sóbrio:

– Sou pai.

INVENÇÃO DE ORFEU, Jorge de Lima

novembro 9, 2010

(Canto I, partes I e II)

Fundação da Ilha

I

Um barão assinalado
sem brasão, sem gume e fama
cumpre apenas o seu fado:
amar, louvar sua dama,
dia e noite navegar,
que é de aquém e de além-mar
a ilha que busca e amor que ama.

Nobre apenas de memórias,
vai lembrando de seus dias,
dias que são as histórias,
histórias que são porfias
de passados e futuros,
naufrágios e outros apuros,
descobertas e alegrias.

Alegrias descobertas
ou mesmo achadas, lá vão
a todas as naus alertas
de vaia mastreação,
mastros que apóiam caminhos
a países de outros vinhos.
Está é a ébria embarcação.

Barão ébrio, mas barão,
de manchas condecorado;
entre o mar, o céu e o chão
fala sem ser escutado
a peixes, homens e aves,
bocas e bicos, com chaves,
e ele sem chaves na mão.

II

A ilha ninguém achou
porque todos o sabíamos.
Mesmo nos olhos havia
uma clara geografia.

Mesmo nesse fim de mar
qualquer ilha se encontrava,
mesmo sem mar e sem fim,
mesmo sem terra e sem mim.

Mesmo sem naus e sem rumos,
mesmo sem vagas e areias,
há sempre um copo de mar
para um homem navegar.

Nem achada e nem não vista
nem descrita nem viagem,
há aventuras de partidas
porém nunca acontecidas.

Chegados nunca chegamos
eu e a ilha movediça.
Móvel terra, céu incerto,
mundo jamais descoberto.

Indícios de canibais,
sinais de céu e sargaços,
aqui um mundo escondido
geme num búzio perdido.

Rosa-de-ventos na testa,
maré rasa, aljofre, pérolas,
domingos de pascoelas.
E esse veleiro sem velas!

Afinal: ilha de praias.
Quereis outros achamentos
além dessas ventanias
tão tristes, tão alegrias?

LAÇOS DE FAMÍLIA, Clarice Lispector

novembro 3, 2010

UMA GALINHA

(…)

Até que um dia mataram-na, comeram-na e passaram-se anos.

O HOMEM QUE QUERIA SER REI E OUTRAS HISTÓRIAS, Rudyard Kipling

outubro 29, 2010

À BEIRA DO ABISMO

– Para o fim do mundo – disse a Mulher do Marido, e, por cima do ombro, olhando para o Terceiro Alguém, vislumbrou coisas indizíveis.

POEMAS, Francisco Alvim

setembro 27, 2010

SEM DENTES

– Como vai, seu Adilson

– Deste jeito

POEMAS, Francisco Alvim

setembro 19, 2010

GEMIDO

Este mundo

custa tanto a passar

a gente sofre tanto

.

.

.

.

O ser humano é o seguinte

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