SEDA, Alessandro Baricco

maio 2, 2012

Baldabiou ficou a ouvir, em silêncio, até o fim, até o trem de Eberfeld.

Não pensava nada.

Escutava.

Sentiu-se mal, no final, ao ouvir Hervé Joncour dizer devagar:

- Nem ao menos ouvi a sua voz.

E pouco depois:

- É uma dor estranha.

Devagar.

Morrer de nostalgia por algo que nunca se viverá.


O GRANDE GATSBY, F. Scott Fitzgerald

dezembro 1, 2011

Conforme a lua subia no céu, as casas insignificantes passaram a se dissolver até que, pouco a pouco, meus pensamentos desaguaram na antiga ilha selvagem que surgira aos olhos dos marinheiros holandeses neste exato lugar – o seio verde e frondoso de um Novo Mundo. Suas árvores extintas, aquelas que cederam lugar à casa de Gatsby, outrora estimularam os sonhos derradeiros e mais ambiciosos dos homens; por um momento transitório e mágico, alguém deve ter prendido o fôlego à vista deste continente, compelido a uma contemplação estética que não compreendia e tampouco desejava, face a face, pela última vez na história, com algo proporcional à sua capacidade de maravilhar-se. Enquanto estava ali, remoendo esse velho e desconhecido mundo, pensei no assombro de Gatsby ao ver pela primeira vez a luz verde da extremidade do cais de Daisy. Ele havia percorrido um caminho enorme até chegar a esse jardim azulado, e seu sonho lhe deve ter parecido tão próximo que dificilmente o deixaria escapar.

(…)

Gatsby acreditava na luz verde, no futuro orgástico que, ano após ano, costuma recuar diante de nós. Ontem fomos iludidos, mas não importa – amanhã correremos mais rápido, esticando nossos braços mais além… E numa bela manhã…

E assim avançamos, botes contra a corrente, impelidos incessantemente de volta ao passado.


DICAS ÚTEIS PARA UMA VIDA FÚTIL – Um manual para a maldita raça humana, Mark Twain

novembro 20, 2011

Image

 

NUM VELÓRIO

Não faça críticas à pessoa em cuja honra é dada a reunião.

Não faça observações sobre o acessório usado pela pessoa. Se as alças forem de alumínio, melhor fingir que não notou.

Se o cheiro das flores estiver muito forte, lembre-se que elas não foram enviadas para você e que a pessoa para quem foram enviadas está pouco se incomodando com as flores.

Ouça com a expressão mais atenta possível as declarações oficiais sobre a personalidade e a vida da pessoa homenageada com a reunião. Caso os dados não correspondam aos fatos, não cutuque o seu vizinho, não pise no pé dele, nem faça sinais para indicar que estão distribuindo balas aos presentes.

Se as informações sobre a pessoa homenageada na reunião forem exageradas, esqueça. Não interrompa o discurso.

Nos trechos emocionantes, emocione-se, sempre de acordo com sua intimidade com os que promovem a reunião, ou com a pessoa homenageada. No momento em que um parente soluça, um amigo íntimo deve se controlar e um estranho apenas procurar o lenço. Se a cerimônia for em honra de um militar, as emoções devem ser de acordo com o posto; o oficial mais graduado tem precedência no estupor emocional e os demais presentes conciliam seus sentimentos conforme o próprio status na cerimônia.

Não leve seu cachorro.

 


NINGUÉM ESCREVE AO CORONEL, Gabriel García Márquez

agosto 26, 2011

Viu o galo amarrado no suporte do fogareiro e desta vez lhe pareceu um animal diferente. A mulher também olhou-o.

- Hoje à tarde tive de espantar os meninos com um cacete – comentou. – Trouxeram uma galinha velha para cruzar com ele.

- Não é a primeira vez – disse o Coronel. – Faziam isso mesmo nos povoados com o coronel Aureliano Buendía. Levavam para ele mocinhas para acasalar.

Ela celebrou a ocorrência. O galo emitiu um som gutural que chegou até o corredor como uma surda conversação humana.

- Às vezes eu penso que esse bicho vai falar – comentou ela.

O Coronel observou-o mais uma vez.

- Trata-se de um galo cantante e sonante – argumentou. Fez cálculos enquanto sorvia uma colherada de canjica. – Ele ainda vai dar de comer à gente por uns três anos.

- Ilusão não se come – preveniu a mulher.

- Não se come, mas alimenta – replicou. – É algo assim milagroso como as pastilhas do meu compadre Sabas.


BARTLEBY, O ESCRIVÃO, Herman Melville

agosto 25, 2011

 

É tão verdadeiro e ao mesmo tempo tão terrível o fato de que, ao vermos ou presenciarmos a miséria, os nossos melhores sentimentos são despertados até um certo ponto; mas, em certos casos especiais, não passam disso. Erram os que afirmam que é devido apenas ao egoísmo inerente ao coração humano. Na verdade, provém de uma certa impotência em remediar um mal excessivo e orgânico. Para uma pessoa sensível, a piedade é quase sempre uma dor. Quando afinal percebe que tal piedade não significa um socorro eficaz, o bom senso compele a alma a desvencilhar-se dela.


FACA, Ronaldo Correia de Brito

agosto 22, 2011

 

 

“— Um homem me pediu pouso. Era como você quando chegou aqui naquela primeira tarde. Sabia dele como sabia de você. Não perguntei nada e tratei das suas feridas. Os olhos dele não paravam de me fitar. Tinha fome e comeu muito. Quando dormiu, vi o seu abandono. Os homens, quando dormem, não escondem nada.”

 

“A faca correu pelas mãos de todos os ciganos. Quem a segurava, tremia. Pouco guardava do antigo brilho. Aquela luz cega de morte, que horrorizou Francisca e lhe deu força para lutar com os tios maternos.

— Eu compreendo o ódio de vocês — tentou falar calmo Anacleto Justino. — Mas respeitem a casa e as leis da hospitalidade. Sobretudo, quando esta hospitalidade é para um irmão.

Luiz e Pedro choravam. Pela primeira vez, desde que aprenderam que choro envergonha.”

 


SEM PLUMAS, Woody Allen

agosto 10, 2011

GUIA BREVE, PORÉM ÚTIL, À DESOBEDIÊNCIA CIVIL

Outros métodos de desobediência civil:

Concentrar-se em frente ao palácio do governo e gritar a palavra “Pudim” até que as exigências sejam atendidas.

Engarrafar o trânsito da cidade conduzindo um rebanho de carneiros pela avenida na hora do rush.

Telefonar a membros do establishment e cantar alguma canção de protesto ou de ninar.

Fazer-se passar por policial e então faltar ao serviço.

Disfarçar-se de alcachofra e dedurar o nome do Presidente da República aos serviços de informação.


MERIDIANO DE SANGUE, Cormac McCarthy

julho 22, 2011

Acamparam em uma plataforma baixa onde paredes de agregado seco assinalavam o antigo curso de um rio e montaram uma fogueira em torno da qual sentaram em silêncio, os olhos do cão e do idiota e de alguns outros homens cintilando vermelhos como brasas em suas órbitas quando viravam a cabeça. As chamas dançavam ao vento e os tições empalideciam e avivavam e empalideciam e avivavam como o batimento sanguíneo de alguma criatura viva eviscerada sobre o chão a sua frente e eles contemplavam o fogo que de fato contém em si parte do próprio homem pois que este o é menos sem ele e se vê separado de suas origens e se torna um exilado. Pois cada fogo é todos os fogos, o primeiro fogo e o último que um dia haverá de ser. Após algum tempo o juiz se levantou e se afastou para alguma missão obscura e depois de alguns instantes alguém perguntou ao ex-padre se era verdade que em certa época houvera duas luas no céu e o ex-padre espreitou a falsa lua sobre eles e disse que podia muito bem ser que sim. Mas decerto o sábio Deus altíssimo em sua consternação pela proliferação de lunáticos nessa terra devia ter lambido um polegar e se curvado lá no caos e beliscado o astro e o extinguido com um chiado. E acaso fosse capaz de encontrar algum outro meio pelo qual os pássaros pudessem corrigir suas rotas na escuridão ele o teria feito também com essa.

Foi proposta em seguida a questão de haver em Marte ou em outros planetas no vácuo homens ou criaturas como eles e nesse ponto o juiz que voltara para junto do fogo e estava ali de pé seminu e suando falou e afirmou que não havia e que não existiam homens em parte alguma do universo salvo os que se encontravam sobre a Terra. Todos ouviram conforme falava, os que se viraram para observá-lo e os que não o fizeram.

A verdade sobre o mundo, disse, é que tudo é possível. Não o houvessem visto todos vocês desde o nascimento e desse modo o dessecado de toda sua estranheza ele se lhes revelaria tal como é, um truque com cartola num espetáculo mambembe, um sonho febril, um transe superpovoado de quimeras sem análogo nem precedentes, um parque de diversões itinerante, uma feira ambulante cujo destino último após incontáveis tendas erguidas em incontáveis terrenos barrentos é inexprimível e calamitoso além de todo entendimento.

O universo não é coisa que conheça alguma restrição e a ordem que nele reina não é compelida por qualquer latitude em sua concepção a repetir o quer que exista em uma parte em qualquer outra dada parte. Mesmo neste mundo mais coisas existem sem nosso conhecimento do que com ele e a ordem que vocês enxergam na criação é a que vocês mesmo puseram ali, como um fio em um labirinto, de modo a não se perder do caminho. Pois a existência tem sua própria ordem e esta nenhuma mente humana pode abarcar, sendo a própria mente apenas mais um fato entre outros.


BARTLEBY, O ESCRIVÃO, Herman Melville

julho 18, 2011

Alguns dias mais tarde, Bartleby terminou quatro documentos longos, quatro cópias de depoimentos prestados diante de mim, durante uma semana, na Suprema Corte. Era necessário conferi-los. Era uma tarefa importante, que exigia precisão. Depois de arrumar tudo, chamei Turkey, Nippers e Ginger Nut da sala ao lado, pensando em dar quatro cópias aos meus quatro funcionários, enquanto eu leria o original. Assim, Turkey, Nippers e Ginger Nut sentaram-se em fila, todos com o seu documento na mão, quando então chamei Bartleby para se juntar a esse curioso grupo.

“Bartleby, depressa! Estou esperando.”

Ouvi um lento arrastar da cadeira no chão sem tapete, e logo ele apareceu, parando na entrada do seu eremitério.

“O que deseja?”, perguntou, dócil.

“As cópias, as cópias! Nós vamos conferi-las. Tome aqui!”, eu disse apressado, estendendo-lhe a quarta cópia.

“Acho melhor não”, ele disse, desaparecendo silenciosamente atrás do biombo.

Por um instante, fiquei como uma estátua de sal à frente da fileira de funcionários sentados. Recompondo-me, dei uns passos na direção do biombo e exigi uma explicação para comportamento tão estranho.

“Por que se recusa?”

“Acho melhor não.”

Com qualquer outro homem, eu teria tido imediatamente um acesso de raiva e o teria expulsado, desprezando quaisquer explicações. Mas havia algo em Bartleby que não apenas me desarmou, como também me comoveu e desconcertou, de maneira assombrosa. Pus-me a raciocinar com ele.

“Estas são as suas próprias cópias que vamos conferir. Vai lhe poupar trabalho, porque basta uma averiguação para os seus quatro documentos. Isso é de praxe. Todo copista tem a obrigação de conferir a sua cópia. Não é? Não vai falar nada? Responda!”

“Acho melhor não”, respondeu num tom agudo.

Parecia que, enquanto eu falava com ele, Bartleby analisava com cuidado cada palavra que eu proferia, compreendia o que eu queria dizer, não conseguia se opor à conclusão irresistível, mas, ao mesmo tempo, uma razão superior o levava a responder daquela forma.

“Então, está decidido a não atender o meu pedido – um pedido feito segundo o costume e o bom senso?”

Ele me deu a entender laconicamente que o meu raciocínio era razoável. Mas que a sua decisão era irreversível.


O TEATRO DAS IDEIAS, Bernard Shaw

maio 18, 2011

Já podemos, assim que tivermos força de espírito para tanto, livrar-nos do absurdo do nirvana, do pessimismo, do racionalismo, da teologia e de todos os outros subterfúgios aos quais nos agarramos por medo de olhar a vida de frente e nela ver não a realização de uma lei moral ou das deduções da razão, mas a satisfação de uma paixão que vem de dentro de nós e da qual não podemos nunca prestar contas. É natural que o homem se encolha diante da terrível responsabilidade que esse fato inexorável atira sobre ele. Todas as desculpas de seu acervo dissolvem-se diante de tal fato – “A mulher me tentou”; “A serpente me tentou”; “Não estava em mim naquela hora”; “Não queria fazer mal”; “Minha paixão falou mais alto que a razão”; “Era meu dever fazê-lo”; “A Bíblia diz que devemos fazê-lo”; “Todo mundo faz”; e coisas assim. Nada resta senão a confissão franca: “Fiz porque sou assim”. Todos detestam dizer isso. Querem acreditar que seus atos generosos são sua característica verdadeira e que suas maldades são aberrações ou produtos da força das circunstâncias.


Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.